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Archive for the ‘Poema?’ Category

Para o Afonso


I
Mundo ledo e doce
Em florido dia frio
Nasceu meu menino

II
Lágrima imensa
Primaveril e cristalina
Me deram os deuses

III
Nasceu espr’ança
Em negro breu de minh’alma
Tudo cresce e brilha

IV
Água e flores
Vida nos campos fervilha
O belo germina

V
Canto com os pássaros
No topo verde das árvores
Beijo o sol e sou feliz

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A curiosidade levou-me a tentar saber algo sobre a poesia japonesa. E na verdade nada como um paperback low cost para nos por num caminho escondido algures na nossa mente…

Descobri que há todo um mundo que eu não conhecia. Na origem o poema japonês era de métrica e tamanho incertos. Inicialmente terão prevalecido os poemas longos (choka ou shoka) que terão dado lugar aos poemas curtos no final do séc. VIII (tanka ou waka). Estes poemas curtos evoluíram de forma a serem rápidos com frases de 5 e 7 sílabas, normalmente na sequência 5 7 5 7 7 num total de 31 sílabas.

Como é obvio ainda não li o livro todo… não é o tipo de literatura que simplemente se segue de fio a pavio. Para já ainda só me debrucei sobre textos do Manyoshu (o livro das 10000 folhas), a primeira compilação de poesia do Japão feita pelo Poeta Ôtomo no Yakamochi em 759-760. Nesta antologia o manyoshu ocupa até à página 102 das suas 250 páginas.

Resolvi avançar para a tradução de um dos poemas. Obviamente que pesa nesta aventura a minha eventual limitação no francês e a mui certa ignorância de aspectos importantes da cultura nipónica.

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[sobre a morte do seu filho Furui]

Mesmo que possuísse
Os sete tipos de tesouros
Que as pessoas deste mundo
Tanto prezam,
Que uso
Deles faria eu?
Nascido
De nós dois,
Meu filho Furui
Qual Pérola branca
À aurora radiosa
Onde brilha a estrela da manhã,
Sem deixar o nosso leito
De fino tecido estendido,
Levantado
Ou sentado,
Brincaria
Connosco.
Quando a estrela da tarde
Trazia a noite:
«Vamos deitar-nos»
Dizia ele pegando na minha mão,
Pai, mãe,
Fiquem junto de mim
Entre vós quero eu dormir
Como o pedaço mediano da erva saki.
Gentilmente
Ele falava assim,
Eu queria ter visto e que males
E que felicidades lhe estariam reservados
Quando um dia,
Ele se tivesse tornado homem.
Eu estava confiante e pleno de esperança
Como quando se está dentro duma grande barca.
Imprevisto,
Um vento veio de través
Soprou violentamente
Sobre as nossas cabeças.
Sem saber o que fazer,
Confundido,
Eu fixei
Erguidas as minhas mangas com tecido branco,
Um claro espelho
Tomei eu em mão.
Para os deuses do céu
Levantando os olhos não fiz mais que implorar.
Perante os deuses da terra
Me prostrei, face contra solo.
Submeti-me à vontade
Dos deuses do céu e da terra;
Que eles me satisfaçam
Ou não me ouçam.
Aflito
Supliquei-lhes.
Mas, mesmo por um pouco de tempo
Não houve melhoras.
Pouco a pouco
O seu corpo emaciou,
Manhã após manhã,
As palavras pararam nos seus lábios.
De sua alma à existência limitada
A sua vida se interrompeu.
Eu pulei,
Bati o pé, gritei,
Caindo ao chão olhei para o céu
E solucei
Deixei voar o meu filho
Que guardava nos meus braços
Tal é a maneira deste mundo.

[poema curto]
Se jovem ele é
Que não conhece o caminho:
Eis aqui pra ti,
Mensageiro do submundo
Carrega-o e fá-lo passar!

[outro poema curto]
Fazendo a oferta de um tecido
Rogo e imploro aos deuses.
Sem o deixar errar
Conduzam-no sem desvio,
Ensinai-lhe o caminho do céu!

[Yamanoue no Okura]
Man. V; 904-906

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Espero que gostem!
PN

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Anjos e querubins olham-me sorridentes
Ignorando os desenhos feitos no ar pelos pequenos diabretes que me seguem
E eu perdido nos meus pensamentos sem corpo
Correndo pelo leito do tempo, querendo ser o centro, estando sempre na margem

Que prazer imenso e desmedido o amor vivido
A descoberta iluminada na antes aparente parte oculta da vida
Nunca foi o caminho a fonte do desaponto
Foi antes a Inspiração tardia, a espera de outrem, querer arte e não ter patrono

Desci finalmente pelas escadas da alma em mim
Confortado pela noite fora
corri em busca das vozes que me ecoavam do corpo
Imaginei que discernia grafias divinas
Li nos silêncios das salas cheias, compreendi palavras curtas onde nada havia,
nunca fui infeliz, nunca fiquei pelo sono,
não quedei no caminho, segui sempre o sonho ,
não sou estranho,
sou o que sou

PN, 19-3-2009

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Dança comigo ao longo deste crepúsculo
Finge que sabemos todos os passos da vida
Que caminhamos no sentido da luz
Que o trajecto começa, que nada finda

Desenha comigo as linhas do nosso opúsculo
A peça incorpórea que tecemos a meias
As fraquezas que são os nossos músculos
Todas as coisas que nos unem, o nada que nos permeia

Caminha comigo ao longo deste rio fluido
Derrubemos as unidades que nos afrontam
Antecipemo-nos no mar estrelado e no seu inexorável fluxo

Enlaça em contraste a tua mão fria na minha
Desvelemos como em sangue a nossa alma rubra conjunta
Jura em uníssono comigo que tudo em nós nunca termina

Paulo Nogueira, 26-02-2009

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