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Archive for the ‘Ficção’ Category

Princípio

Jaquina arrastava-se um pouco, movia-se com dificuldade, mas naquela tarde nada a faria mudar o rumo, nem as artroses, nem a inércia que se apoderava dela todos os dias, nem o sol abrasador que se impunha no zénite. Cada movimento era um misto de dor e de prazer, custavam o tamanho do mundo no entanto não tinha forças para mais nada…

A casa dos súbditos do senhor é um campo aberto, tem muros mas não tem tecto, tem a porta aberta e todos podem entrar, as câmaras do repouso são geridas de forma justa, mas reina nelas a justiça de forma suprema…

O filho, a mãe e o marido, estavam todos ali comungando o jus da vida.

Aproximou-se do filho, pé ante pé, por entre os estreitos corredores, finalmente abeirou-se dele, olhou-o, limpou-lhe o rosto e beijou-o repetidamente e foi chorando pesadamente, com dois rios a sulcar-lhe o rosto. – A mãe ama-te muito querido filho! – Disse ela por fim.

Um longo silêncio abeirou-se e ficou entre eles.

– A mãe nunca te esquece filho! Agora vou ver o paizinho.

Jaquina ergueu-se lentamente, com dificuldade, e necessitou de algum apoio para seguir pelo corredor estreito. Com paciência dobrou a esquina e desceu um pouco… de súbito parou e virou-se para a direita…

– Mãezinha!… – gritou ela suavemente. Deu dois passou curvou-se pouco a pouco e deu-lhe dois beijinhos.

– Faz-me tanta falta mãezinha. – virou-se um pouco e sentou-se.

– Faz-me tanta falta! Vossemecê nem imagina. – voltou a dizer.

– Vá! Tenho de ir. Vou ali mais a baixo falar com o Zé. – Virou-se um pouco, apoiou-se nas suas mãos e disferiu mais beijinhos. – Até logo mãezinha!

O sol brilhava cada vez mais, a luz era imensa e o calor apertava. Os movimentos dolorosos eram crescentemente mais difíceis. Jaquina não sentia dor, nem se queixava de nada. A filha amparava-a com a mão, não dizia nada, tentava não sentir o quer que fosse mas os olhos estavam túmidos… não fazia mal, só a mãe é que podia dar conta, mas não era hoje, não era agora, nunca seria ali.

Jaquina deu uma sacudidela tão rápida quanto é possível a uma pessoa da sua idade, dobrou-se sobre a fotografia e deu muitos beijinhos quase silenciosos.

– Zé, meu amor! – murmurou. Depois encostou a cabeça e assim ficou…

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Exórdio

– O prenúncio de ausência de chuva aligeirou-me a manhã, ainda bem que não tenho de levar guarda-chuva – pensou.

Mas tinha-se esquecido de que a agitação andava nas ruas, e que o tempo que cronometrava tinha sofrido uma irreparável distorção. Começou a ter suores frios quando se apercebeu que a reunião que tinha marcado para aquela manhã, para as 9.30, lhe comprometia irremediavelmente o café matinal no café do senhor Abílio… perderia a xícara do café que adocicava lentamente enquanto o senhor Abílio lhe perguntava pelas manchetes dos jornais do dia anterior, das quais se inteirava sem proferir mais que algumas interjeições. Nunca se apercebera porque não conseguia registar na sua mente os acontecimentos dos dias anteriores, todos os dias se colocava perante a televisão e o mundo decorria á sua frente… porque raio precisava do senhor Abílio para lhe afixar os acontecimentos na cabeça? Seria um efeito do café? O café matinal no barzinho era o único café que bebia, porque o café faz mal á saúde. Mas se não bebesse o café como poderia justificar a sua presença no bar todas as manhãs? Podia tomar o pequeno-almoço no barzinho… mas não conseguia sair de casa sem tomar o pequeno-almoço, nunca o tinha feito porque havia de o fazer agora? Se tomasse o pequeno-almoço no barzinho não poderia tomar os seus cereais com sabor a canela com o leite meio gordo.

– O Abílio não se esmera no leite que escolhe para o seu estabelecimento, recorre àquelas marcas brancas inventadas a avulso que só são escolhidas porque oferecem preços a menos 10 cêntimos, mais baratos que tudo o resto, e que doutro modo ninguém dava por elas.

O domingo ficaria afectado se tomasse o pequeno-almoço no Abílio, deixava de ter de ir ao Supermercado da vila que conseguia ter os seus cereais com sabor a canela e o leite meio gordo de boa marca em pacotes verdes.

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