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Archive for Março, 2009

A curiosidade levou-me a tentar saber algo sobre a poesia japonesa. E na verdade nada como um paperback low cost para nos por num caminho escondido algures na nossa mente…

Descobri que há todo um mundo que eu não conhecia. Na origem o poema japonês era de métrica e tamanho incertos. Inicialmente terão prevalecido os poemas longos (choka ou shoka) que terão dado lugar aos poemas curtos no final do séc. VIII (tanka ou waka). Estes poemas curtos evoluíram de forma a serem rápidos com frases de 5 e 7 sílabas, normalmente na sequência 5 7 5 7 7 num total de 31 sílabas.

Como é obvio ainda não li o livro todo… não é o tipo de literatura que simplemente se segue de fio a pavio. Para já ainda só me debrucei sobre textos do Manyoshu (o livro das 10000 folhas), a primeira compilação de poesia do Japão feita pelo Poeta Ôtomo no Yakamochi em 759-760. Nesta antologia o manyoshu ocupa até à página 102 das suas 250 páginas.

Resolvi avançar para a tradução de um dos poemas. Obviamente que pesa nesta aventura a minha eventual limitação no francês e a mui certa ignorância de aspectos importantes da cultura nipónica.

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[sobre a morte do seu filho Furui]

Mesmo que possuísse
Os sete tipos de tesouros
Que as pessoas deste mundo
Tanto prezam,
Que uso
Deles faria eu?
Nascido
De nós dois,
Meu filho Furui
Qual Pérola branca
À aurora radiosa
Onde brilha a estrela da manhã,
Sem deixar o nosso leito
De fino tecido estendido,
Levantado
Ou sentado,
Brincaria
Connosco.
Quando a estrela da tarde
Trazia a noite:
«Vamos deitar-nos»
Dizia ele pegando na minha mão,
Pai, mãe,
Fiquem junto de mim
Entre vós quero eu dormir
Como o pedaço mediano da erva saki.
Gentilmente
Ele falava assim,
Eu queria ter visto e que males
E que felicidades lhe estariam reservados
Quando um dia,
Ele se tivesse tornado homem.
Eu estava confiante e pleno de esperança
Como quando se está dentro duma grande barca.
Imprevisto,
Um vento veio de través
Soprou violentamente
Sobre as nossas cabeças.
Sem saber o que fazer,
Confundido,
Eu fixei
Erguidas as minhas mangas com tecido branco,
Um claro espelho
Tomei eu em mão.
Para os deuses do céu
Levantando os olhos não fiz mais que implorar.
Perante os deuses da terra
Me prostrei, face contra solo.
Submeti-me à vontade
Dos deuses do céu e da terra;
Que eles me satisfaçam
Ou não me ouçam.
Aflito
Supliquei-lhes.
Mas, mesmo por um pouco de tempo
Não houve melhoras.
Pouco a pouco
O seu corpo emaciou,
Manhã após manhã,
As palavras pararam nos seus lábios.
De sua alma à existência limitada
A sua vida se interrompeu.
Eu pulei,
Bati o pé, gritei,
Caindo ao chão olhei para o céu
E solucei
Deixei voar o meu filho
Que guardava nos meus braços
Tal é a maneira deste mundo.

[poema curto]
Se jovem ele é
Que não conhece o caminho:
Eis aqui pra ti,
Mensageiro do submundo
Carrega-o e fá-lo passar!

[outro poema curto]
Fazendo a oferta de um tecido
Rogo e imploro aos deuses.
Sem o deixar errar
Conduzam-no sem desvio,
Ensinai-lhe o caminho do céu!

[Yamanoue no Okura]
Man. V; 904-906

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Espero que gostem!
PN

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Anjos e querubins olham-me sorridentes
Ignorando os desenhos feitos no ar pelos pequenos diabretes que me seguem
E eu perdido nos meus pensamentos sem corpo
Correndo pelo leito do tempo, querendo ser o centro, estando sempre na margem

Que prazer imenso e desmedido o amor vivido
A descoberta iluminada na antes aparente parte oculta da vida
Nunca foi o caminho a fonte do desaponto
Foi antes a Inspiração tardia, a espera de outrem, querer arte e não ter patrono

Desci finalmente pelas escadas da alma em mim
Confortado pela noite fora
corri em busca das vozes que me ecoavam do corpo
Imaginei que discernia grafias divinas
Li nos silêncios das salas cheias, compreendi palavras curtas onde nada havia,
nunca fui infeliz, nunca fiquei pelo sono,
não quedei no caminho, segui sempre o sonho ,
não sou estranho,
sou o que sou

PN, 19-3-2009

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Eureka

Eureka (2 de 4) publicado pelos Boom! Studios
Transposição do universo da série televisiva criada por Andrew Cosby e Jamie Paglia.
Para quem conhece um mínimo da série este capítulo da história segue-se sem dificuldade de maior… não creio que seja de particular interesse entrar em detalhes desta história em particular, bastará saber que todos os elementos típicos estão incluídos.
Existe claramente potencial na transposição deste universo para a BD, pelo menos eu vou tentar ler os próximos dois capítulos que faltam para terminar esta série limitada.
PN 1/3/2009

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Back in blue

Já lá vai muito tempo que não lia uma história do Savage Dragon, a minha memória regista que terá sido por volta do número 100; e na verdade também nunca li muitas histórias.
Impressiona-me que o Erik Larson ainda continue a desenhar estas histórias, apesar da sua posição na IMAGE. Obviamente que a arte no interior tem uma vibração de apressada que só se desculpa por ser o desenhador quem é… é um balanço difícil mas que vale a pena na minha opinião.
Este capítulo tem quase tudo o que um capítulo que pretende restabelecer o status quo deve ter; 1) e essencial: tem o President Barack Obama na capa e na história; 2) tem o herói de volta à policia abandonado os tempos de caçador de prémios que parece não ter corrido pelo melhor recentemente; 3) tem um colocar a zero da sua situação emocional; 4) uma interacção simpática com os filhos, eu nunca tinha visto o filho biológico do SD, nem sabia que existia… boa malha! 5) por último, tem um final inesperado que põe tudo de pernas para o ar (e este aspecto não tem nada a ver com a história com o presidente Obama).
Consegue-se neste capítulo do Savage Dragon mais história que aquela que se encontra em algumas séries de BD com 20 ou 30 capítulos.
PN 1/3/2009

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Old friends and enemies part 2 of 3
James “Bucky” Barnes carrega actualmente o manto do Capitão América. Está correntemente envolvido com os elementos dos “INVADERS”, Namor e Natalia (a Black Widow).
A história actual, para já, parece ter mais a ver com o passado de Barnes como Winter Soldier do que como o actual Capitão América, à parte o facto de ele ser o portador desse manto. De facto neste capítulo Barnes aparece com o uniforme do WS, “para não desonrar o uniforme” do CA. Mas parece que Barnes está a tentar acertar algumas contas do passado e tem um plano que também parece bem encaminhado. Até que se torna óbvio que o seu opositor Chin o conhece melhor do que ele supunha… e plano começa claramente a falhar!
A situação é neste momento muito complicada, tudo parece depender do que a Black Widow conseguir orquestrar por sua conta para por cobro aos rumo dos eventos.
PN 1/3/2009

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Dança comigo ao longo deste crepúsculo
Finge que sabemos todos os passos da vida
Que caminhamos no sentido da luz
Que o trajecto começa, que nada finda

Desenha comigo as linhas do nosso opúsculo
A peça incorpórea que tecemos a meias
As fraquezas que são os nossos músculos
Todas as coisas que nos unem, o nada que nos permeia

Caminha comigo ao longo deste rio fluido
Derrubemos as unidades que nos afrontam
Antecipemo-nos no mar estrelado e no seu inexorável fluxo

Enlaça em contraste a tua mão fria na minha
Desvelemos como em sangue a nossa alma rubra conjunta
Jura em uníssono comigo que tudo em nós nunca termina

Paulo Nogueira, 26-02-2009

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Exórdio

– O prenúncio de ausência de chuva aligeirou-me a manhã, ainda bem que não tenho de levar guarda-chuva – pensou.

Mas tinha-se esquecido de que a agitação andava nas ruas, e que o tempo que cronometrava tinha sofrido uma irreparável distorção. Começou a ter suores frios quando se apercebeu que a reunião que tinha marcado para aquela manhã, para as 9.30, lhe comprometia irremediavelmente o café matinal no café do senhor Abílio… perderia a xícara do café que adocicava lentamente enquanto o senhor Abílio lhe perguntava pelas manchetes dos jornais do dia anterior, das quais se inteirava sem proferir mais que algumas interjeições. Nunca se apercebera porque não conseguia registar na sua mente os acontecimentos dos dias anteriores, todos os dias se colocava perante a televisão e o mundo decorria á sua frente… porque raio precisava do senhor Abílio para lhe afixar os acontecimentos na cabeça? Seria um efeito do café? O café matinal no barzinho era o único café que bebia, porque o café faz mal á saúde. Mas se não bebesse o café como poderia justificar a sua presença no bar todas as manhãs? Podia tomar o pequeno-almoço no barzinho… mas não conseguia sair de casa sem tomar o pequeno-almoço, nunca o tinha feito porque havia de o fazer agora? Se tomasse o pequeno-almoço no barzinho não poderia tomar os seus cereais com sabor a canela com o leite meio gordo.

– O Abílio não se esmera no leite que escolhe para o seu estabelecimento, recorre àquelas marcas brancas inventadas a avulso que só são escolhidas porque oferecem preços a menos 10 cêntimos, mais baratos que tudo o resto, e que doutro modo ninguém dava por elas.

O domingo ficaria afectado se tomasse o pequeno-almoço no Abílio, deixava de ter de ir ao Supermercado da vila que conseguia ter os seus cereais com sabor a canela e o leite meio gordo de boa marca em pacotes verdes.

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