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Ventos de leste

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Ventos de leste

 

Será este fumo de algum fogo?

Será chama que promete arder?

Sopram ventos de leste para sempre

Eu não sei bem, que dizer

 

A liberdade ganha voz

Pr’além do corpo que não parecia ter

Todos temos um sonho hoje

Eu não sei mais, que querer

 

Vem!

Vem daí revolução!

 

Há sempre algo em que acreditamos

Sempre alguém que faz algo acontecer

Temos finalmente novas visões

Eu não quero, pedir mais

 

Sobram homens que vão lembrar

Que há um passado pra sempre esquecer

Todos queremos algo mais

O passado, não, nunca mais

 

Vem!

Vem daí revolução!

 

31 Outubro 1989

Paulo Nogueira

 

A história deste tema é simples, o meu amigo “John” quis escrever uma canção sobre o que estava a acontecer, sobre o Gorbachov e a mudança que se sentia vinda de Leste. Não me lembro se ele sugeriu todo o título, tenho a sensação que sim. Lembro-me claramente de lhe ter sugerido as duas primeiras frases: “será este fumo de algum fogo? Será chama que promete arder?” e de ter recebido concordância: “é isso!”. E o texto surgiu facilmente.

A canção que surgiu era orelhuda. Como todas as outras, não foi muito longe; mas era orelhuda. Tinha um lado mais pop que claramente me agradava.

Nesta altura, 1989, procurávamos ser relevantes nas temáticas; queríamos ser mais U2 que Duran, creio. Simon Le bon e companhia ainda não tinham escrito Ordinary World, Come Undone, Too Much Information e Sin of the city…

Só recentemente é que me apercebi da relevância do texto e da canção que fizemos então. Isto aconteceu dias antes da queda do muro de Berlim  não creio que nos tenhamos apercebido que tínhamos escrito o tema sobre a envolvência em curso e que tudo aquilo culminava na queda do muro, que tudo estava ligado. Acho que estávamos demasiado ocupados: Eu, com o começo do meu segundo ano de faculdade; o “John” com a ascensão da empresa de informática onde trabalhava; e o “Cami” a divertir-se com a tuna…

Visto hoje à distância, estavam a acontecer coisas interessantes em todo o lado; nós estávamos a ser realmente o que queríamos (relevantes); estávamos todos em momentos fundamentais das nossas vidas mas não víamos isso, ansiávamos ser relevantes mas achávamos que éramos exactamente o contrário.

A verdade, sei-o bem hoje, todos os momentos das nossas vidas são relevantes!

“será este fumo de algum fogo?

será chama que promete arder?”

– Claro que sim! Poderia ser de outra maneira?

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Volto hoje a mais um texto meu com 25 anos, também escrito expressamente para uma canção.

A melhor recordação que tenho deste texto é a do meu amigo “John” chegar junto de mim e dizer-me, já está! Começa num clássico mi menor, e a canção era linda e seguia o texto de fio a pavio… como é que aquilo era possível?

Não me lembro da razão da temática do texto ser esta. Quase certamente era puramente ficcional. Tenho a sensação que a ideia começou em torno do nome Maria e que a escrita terá tido alguns tons de Biliie Jean… 

Aqui fica, para que não permaneça na gaveta mais um quarto de século 🙂

 

Maria (se tu soubesses)

Maria tinha os olhos tristes

E uma expressão de cansada

Mas sorria da dor que alimentava

E não tremia do frio que tinha

Nem confessava nada do que temia

 

Maria! Quem te provocou essas lágrimas

E não te as enxugou?

Oh Maria! Quem te beijou os lábios

E não te amou?

Oh Maria! se tu soubesses

Se tu soubesses Maria

 

Ninguém sabia os seus segredos


E ninguém tinha a sua vontade


E ela não sabia o que era verdade


Mas não temeu com um filho nos braços

Nem renunciou aos seus pecados

 

Maria! Quem te provocou essas lágrimas

E não te as enxugou?

Oh Maria! Quem te beijou os lábios

E não te amou?

 

Oh Maria! se tu soubesses

Se tu soubesses Maria

Que eu não censuro o teu passado


Se tu soubesses 


Que eu nada temo de factos consumados

Se tu soubesses

 

 

Fevereiro 1988

Paulo Nogueira

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Foto: http://www.loc.gov/folklife/lomax/spain/images/MurciaSpain.jpg

Algures no tempo, há mais de 25 anos, eu e alguns colegas de escola tentávamos escrever canções. Lembro-me de um dia irmos para um sótão catita que o Miguel (o Cami), e o irmão, tinha e de tentarmos fazer uma canção; saía uma coisa à xutos, com todos os acordes que sabíamos; menos Fá, que era difícil para nós!
O primeiro texto que fiz, expressamente para ser uma canção, e que aconteceu ser musicada independentemente pelo meu amigo “john”, foi este “contador de historias”!
Era uma canção catita…
O século já não é o mesmo, mas o texto ainda me parece actual.

Contador de histórias

Era uma vez um mundo
Que ouvia as minhas histórias
Semeava com elas sonhos
Cheios de fantasia

Mas isso foi há muito, muito tempo
E agora, tudo mudou
Já ninguém quer saber de fantasia
Toda a gente esqueceu o que eu sou!

Sou um contador de histórias
Perdido no tempo de hoje
Conto façanhas e vitórias
Conto contos que ninguém ouve

É duro, viver no século vinte
Quando já se acabaram as fadas
Quando já se vive no limite
De umas vidas maquinadas

É duro, estou só e sozinho
que espécie de histórias as de agora?
São histórias só de desatino
Sem cor, sem brilho e sem história

Sou um contador de histórias
Perdido no tempo de hoje
Conto façanhas e vitórias
Conto contos que ninguém ouve

8 Novembro 1987
Paulo Nogueira

Em memória

Os anos passam a correr mas as memórias perduram connosco.
Fará hoje, dia 31, anos que a minha amiga Mónica Peres partiu. O que retenho é a sua entrega para congregar os amigos e o esforço que fazia para que todos tivessem bem.
Costumo sempre fazer algo simples para lembrar a sua vontade de viver e a sua alegria.
Desta vez encontrei material de 1999, umas fotos convencionais fechadas há pelo menos 12 anos. De um concerto a que fomos a Londres em que com ela foi a mãe, creio que por o marido não ter podido ir… Confesso que a esta distância temporal já não me recordo de todos os detalhes, lembro que estava gravida da filha Lara e estava feliz.

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Não sei se terá visto os álbuns de fotografias que agora encontrei. Tenho a sensação de que sim. Para minha surpresa dentro de dois dos três álbuns (aquelas caixas que nos davam quando nos revelavam as fotografias – vejam o demodé que isto soa!) encontrei dois papelinhos a seleccionar quatro fotos no total. Não me lembro de quem os escreveu. Terá sido a própria Mónica? Não sei…
Uma das escolhidas é esta a seguir, com a mãe e com o nosso amigo e colega de aventura londrina Amílcar. Creio que é uma prova do quão feliz ela estava…

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Pouco depois da Mónica partir o “Sargento” sugeriu que devíamos escrever uma música para ela. Eu e o Hugo concordámos com a ideia.
Um dia pela manhã ía eu para o trabalho e senti-me acompanhado por uma magnifico arco-íris. Fez-se um clique… A letra para a música da Mónica apareceu:

Rainbow at the Door
Hello,
I can’t really say that life is great
But neither can I complain about it
I wish I could save the world everyday
Or at least I could always say the right words
But I’m just human
What can I say?

I woke up with a rainbow at my door
I know what it means and what it’s for
No matter where you are
You keep giving yourself away

We want you to know
We are coming out
We are shouting out loud
We are coming together

Hello
I can’t really understand what I feel inside
But neither can I ask to have time turned back
I know we can have a better world if we try
I’m wearing a smile and I’m learning to laugh
I’m just human
What else can I do?

I woke up with a rainbow at my door
I know what it means and what it’s for
No matter where you are
You keep giving yourself away

We want you to know
We are coming out now
We are laughing out loud
We are coming together

WE ARE COMING OUT TOGETHER

Hello
We can’t really understand what we feel
But neither can we turn our backs now
We know we can make a brave new world today
We are wearing our smiles and spreading out love
We are only humans
What else is there to do?

We woke up with rainbows at the door
We know what it means and what it’s for
No matter where you are
You keep giving yourself away

YOU KEEP GIVING YOURSELF AWAY
AWAY AWAY AWAY

O Hugo sacou do baixo e construiu a base da música, conversámos com a Dany (a grande amiga da Mónica) que nos ajudou a chegar á “música” que acabou por ficar para nós como a música da Mónica.

Rainbow at the door – versão tocada ao vivo (ensaio) por nós três: eu, Hugo e Sarge.
Rainbow at the door – versão tocada ao vivo (ensaio) por quatro, nós três com a voz do Ruben C.
Rainbow at the door instrumental – bateria e teclas, o Sarge e eu em improviso!

Tenho a sensação de que Mónica terá gostado… Estou certo de que ela nunca nos deixaria desanimar. É por isso que cá faz falta apesar de se continuar a dar, como diz a canção 😉 , e de continuar a existir em nós.

PN

Na Actual n.º 1970 da edição do Expresso deste fim-de-semana (31 de Julho 2010) num artigo interessante sobre a colonização Portuguesa em Africa com a entrevista a René Pélissier concluia do seguinte modo:
O que é, para si, um bom livro?
Se um livro me traz coisas novas, considero-o bom; se me traz muitas coisas novas, é excelente[…]”
Esta é uma ideia com a qual me identifico. Sempre tendi a pensar que não vale a pena um livro, a escrita de um livro, se não houver algo para ser dito. Sempre achei que é preciso uma maturidade elevada para escrever um livro… é claro, um bom livro!

Ora o que me aconteceu é que eu encontrei este fim-de-semana um livro excelente no sentido de Pélissier…

Há nas 178 páginas de texto deste livro (16 páginas de imagens) de não ficção mais, mais história, desenvolvimento de meandros políticos e revelações que em muitas bibliotecas inteiras.

Para quem pense que sabe qualquer coisa sobre templários, hospitalários, religião, cruzadas, relíquias, intrigas políticas, a inquisição e o plano de Filipe IV, o Belo, para ficar com os bens da Ordem do templo… Ah, e sobre o santo sudário e análise tridimensional computadorizada… bem este é um livro a ler.

A autora sabe de onde vem e para onde vai, sabe que há todo um conjunto de hipótese que se vão abrindo ao longo do caminho mas deixa sempre esse caminho para deixar tudo nas mãos das fontes actualmente disponíveis. E é verdadeiramente fantástica a quantidade de fontes e conhecimento que existem para eventos que aconteceram à cerca de 1000 anos, relativas a artefactos de coisas que aconteceram há 2000 anos.

PS – este artigo estava em fase de rascunho. Já passou tanto tempo e não me lembro de como o queria acabar. Mas hoje achei que o poderia publicar como está

Eu já tinha tentado ler Paul Auster antes, mas, creio que essencialmente por falta de disponibilidade mental e temporal, nunca tinha conseguido ler muitas páginas seguidas e não tinha assim ainda uma noção mínima sobre o Autor.
Este pequeno período de férias e de fugas à rotina habitual permitiu-me pegar neste travels in the scriptorium e lê-lo de lés-a-lés num dia soalheiro. Obviamente que uma tal partida naïve para uma obra destas tem consequências, pensava eu que estava a ler um livro como todos os outros e ia buscando sentido em tudo o que ia lendo… mas havia sempre algo que não encaixava! Quando finalmente se atinge a recursividade absoluta e lemos novamente as palavras iniciais e elas parecem ter outro significado, percebi eu, que toda a história não tinha o sentido que lhe almejava.
No global pareceu-me essencialmente um exercício sobre a construção de um mundo que só existe enquanto existe o escritor que a escreve… Os personagens são reais enquanto o escritor escreve, a situação é absolutamente verosímil, mas não existe vida propriamente dita… talvez exista castigo, mas enfim, tão real como tudo o resto.
No final, final, final… quis gostar mas não gostei muito… reconheço o engenho e a arte mas pareceu-me curto.

Quis depois compreender se eu tinha percebido tudo mal e procurei de forma breve comentários sobre esta obra. Foi rápido perceber que não serei o único a ter algumas reticências difíceis de definir.
Uma primeira ligação mostrou-me que esta obra se insere num universo próprio do autor que potencialmente só pode plenamente ser compreendido pelos seguidores da obra senão apenas os fãs. Ok, Muito bem. Há um mundo mais ou menos hermético que eu não conhecia à partida… qual seria a minha reacção se tivesse lido esta obra depois das que a precedem? Fico com a certeza de que seria diferente, que certamente gostaria mais e talvez não tivesse buscado incessantemente sentido no que ia lendo.
Uma ligação dá conta das perplexidades de alguns dos revisores da obra.

Parece-me sempre algo bom quando uma obra diz algo que se segue com facilidade e deixa umas pontas soltas para reflexão sem nunca realmente se esgotar. Não sei bem porquê mas disso gosto!

Passarola rising dá-nos uma realidade alternativa interessante sobre as ambições de Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Existe ao longo de todo o romance uma áurea de verosimilhança que nos faz querer que tivesse mesmo sido assim que as coisas tivessem acontecido. É óbvio que infelizmente a passarola nunca esteve perto de ser tão real como ela surge neste primeiro romance de Abidi… Se tivesse tido assim tão realmente demonstrável o rei português, que tinha de facto investido na ideia, não a teria deixado partir de forma tão fácil.
Apesar de ser leitura fácil e de abordar questões importantes como a Fé e a Ciência na era do Iluminismo acaba por ter uma perspectiva “demasiado” histórica… Pessoalmente acho que o romance teria ficado mais interessante se não houvesse uma espécie de fecho feito pelo irmão mais novo de Bartolomeu, Alexandre, e tivesse ficado algo ao leitor para imaginar e concluir.

Merece uma leitura adicional esta revista e entrevista com o autor Clique aqui.